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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Editorial


Graças às múltiplas possibilidades de interpretação, as grandes obras do passado ainda hoje nos encantam e ao entrarmos em contato com elas ainda descobrimos novos significados, novos elementos muitas vezes atribuídos ao mundo particular dos escritores. Suas biografias nos ajudam a entender estes limites como podemos ver nos links Vida e Obra. Por isso o Acervo tem orgulho em apresentar os Clássicos da Literatura adaptados para fotonovelas num casamento perfeito entre forma e conteúdo. Obras primas como: Ana Karenina, de Tolstói; Uma mulher sem importância, de Oscar Wilde; A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho; O corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo; Madame Bovary, de Flaubert; Manon Lescaut, do Abade Presvot; Paolo e Fancesca, de Dante; Orgulho e preconceito, de Jane Austen; Romeu e Julieta, de Shakespeare; O primo Basílio, de Eça de Queirós; Guilherme Tell, de Schiller e O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë interpretadas por grandes astros e estrelas como: Vittorio Gassman, Anna Maria Ferrero, Virna Lisi, Alberto Farnese, Leonora Ruffo, Jacques Sernas, Dino Stanga, Dada Galotti, Martine Redon, Jean Claude Barban, Maria Giovannini, Carlo Lima, Giorgio Albertazzi, Bianca Toccafondi, Maria Aurélia Bisutti, Jorge Hilton, Patrícia Del Frate, Anna Massera, Giacomo Rossi Stuart, Wagner Bentivegna, Carla Gravina, entre outros. E como a vida é mais rápida do que a arte que a encerra, e muitas vezes neste jogo não sabemos quem imita quem, o blog oferece Os Grandes Amores do Passado, histórias reais dos romances entre Dostoievsky e Apolinária Suslova, El Cid e Dona Ximena, Giuseppe e Anita Garibaldi, Luiz XIV e Luísa de Vallière e Napoleão e Maria Walewska. Divirtam-se.

Clássicos da Literatura

Jane Austen 
1775 - 1817

Uma das maiores romancistas inglesas, conhecida pela forma inteligente e perspicaz com que retrata a vida social da classe média e as relações hu­manas na passagem do século XVIII para o sé­culo XIX. Da obra de Austen, selecionamos Orgulho e Preconceito. 


   

 
Gustave Flaubert 
1821 - 1880

Romancista e contista francês conhecido pelo estilo cuidadoso, pela escolha precisa das pa­lavras e por suas descrições realistas. Aqui apresentamos sua obra mais célebre: Madame Bovary, que se passa na Normandia, onde Flaubert resi­diu a maior parte de sua vida.


 
Léon Tolstoi 
1828 - 1910

Escritor russo, considerado um dos maiores roman­cistas mundiais por suas obras pintarem um quadro vívido da sociedade russa do século XIX onde tanto trabalhou para melhorar a vida dos campo­neses. A obra que escolhemos deste autor genial é Ana Karenina.





Oscar Wilde
1854 - 1900

Escritor irlan­dês conhecido por sua inteligência, seu discurso brilhante e por um esteticismo ex­tremo. Para ele a arte deve ser jul­gada apenas por padrões de beleza, e  não  morais. Wilde escreveu poemas, contos, um romance e várias peças para o teatro dentre elas a irônica Uma Mulher sem Importância.




Alexandre Dumas Filho 
1824 - 1895

Romancista e dramaturgo francês, filho ilegítimo de Alexandre Dumas e uma costureira, muda-se para Saint-Germain-en-Laye para viver com seu pai e conhecer Marie Duplessis, uma jovem cortesã que lhe inspirou a escrever o romance que é a base da ópera La Traviata de Verdi: A Dama das Camélias.

 Vida & Obra

  

Friedrich Schiller
1759 - 1805

Johann Christoph Friedrich von Schiller  foi poeta, dramaturgo, filósofo, historiador e junto com Goethe liderou o movimento literário romântico alemão denominado Sturm und Drang. De todos os dramas do autor o mais impressionante e lírico é sem dúvida Guilherme Tell.

 Vida & Obra

 
Emily Brontë
1818 - 1848

Escritora e poetisa britânica, irmã mais velha das três sobreviventes irmãs Brontë: Charlotte e Anne, tiveram junto ao irmão Branwell uma vida rica de imaginação. Ela é a autora do romance O Morro dos Ventos Uivantes, clássico da literatura mundial, que tem como pano de fundo as florestas de Yorkshire.
 
 
Eça de Queirós
1845 - 1900

O escritor português é uma das personalidades que mais contribuiu para afirmar a existência de um romance português, quer pela exigência de estilo e apuro no desenho de situações e perso­nagens, quer pelo quadro realista e irônico da sociedade portuguesa da época representada tão bem aqui pelo O Primo Basílio.
 
Victor Hugo 
1802 - 1885

Romancista francês, poeta, dramaturgo e um dos principais representantes do romantismo francês. Envolveu-se também na política e foi acér­rimo defensor dos ideais republicanos. Hugo é mundialmente conhecido por sua poesia e autor do ro­mance O Corcunda de Notre Dame.

Dante Alighieri 
1265 - 1321

O maior e mais influente escritor italiano da Idade Média. Em Florença ainda criança apai­xona-se por Beatriz. Após a morte da amada vol­ta-se para a filosofia e mais tarde, a levar uma vida errante devido a política. Morreu em Ravena, após concluir A Divina Comédia. E é dela que extraímos o cantigo Paolo e Francesca.
 
William Shakespeare
1564 - 1616

Poeta e dramaturgo inglês, considerado o maior escritor da língua inglesa, devido a suas divagações sobre a natureza humana e sua maestria poética. De sua obra vastíssima entre contos, poemas, comédias, dramas e tragédias destacamamos uma das mais populares estórias de amor: Romeu e Julieta.
  
Abade Prévost
1697 - 1763

Escritor francês de espírito inquieto foi um homem de grandes contradições, que conciliou a vida militar com a de frade e a de filósofo libertino. Notabilizou-se com o romance que viria a servir de base para óperas de Jules Massenet e Giacomo Puccini: Manon Lescaut.


Fotonovelas Clássicos da Literatura

Grande Hotel Edicão Mensal - Nº 14
A dama das camélias
1971 - Editora Vecchi
72  Páginas
 

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Grande Hotel Edicão Mensal - Nº 17
Ana Karenina
1971 - Editora Vecchi
74  Páginas
 

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Capricho - Ano XXIX - Nº 549
Madame Bovary
1981 - Editora Abril
62  Páginas
 

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Grande Hotel Edicão Mensal - Nº 4
Guilherme Tell
1970 - Editora Vecchi
73  Páginas
 

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Grande Hotel Edicão Mensal - Nº 24
O corcunda de Notre Dame
1972 - Editora Vecchi
72  Páginas
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Foto-Romance Capricho - Nº 171
Manon Lescaut
1966 - Editora Vecchi
77  Páginas
 

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Grande Hotel Edicão Mensal - Nº 7
Paolo e Francesca
1971 - Editora Vecchi
74  Páginas
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Cinderela - Nº 442
O primo Basílio
1963 - Rio Gráfica Editora
19  Páginas
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Grande Hotel Edicão Mensal - Nº 15
O morro dos ventos uivantes
1971- Editora Vecchi
73  Páginas
 

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Supernovelas Capricho - Nº 8
Orgulho e preconceito
1965 - Editora Abril
78  Páginas
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Carinho - Nº 1
Uma mulher sem importância
1960 - Editora Edibras
20  Páginas
 

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Grande Hotel Edicão Mensal - Nº 11
Romeu e Julieta
1971 - Editora Vecchi
74  Páginas
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sábado, 9 de julho de 2011

Jane Austen


A Europa do século XVIII passa por importantes mudanças políticas e econômicas. Os tratados de Utrecht (1713-1715) encerram o período da preponderância francesa, que passa a ser britânica. O absolutismo triunfa até meados desse século em boa parte do continente, onde ocorrem diversos conflitos: a guerra da Tríplice Aliança, a guerra da sucessão da Áustria, a guerra dos Sete Anos e outros.

As rivalidades coloniais entre França e Inglaterra pesam muito nas relações entre esses países. Na índia os britânicos suplantam definitivamente a influência francesa no decorrer da guerra dos Sete Anos.

A partir de 1760 tem início na Inglaterra a Revolução Industrial. A invenção da máquina a vapor é decisiva para a aceleração da série de transformações tecnológicas, econômicas e sociais que só depois de muitas décadas se estenderiam ao continente.

Mansfiel Park
O impacto causado na Europa pela Revolução Francesa, em 1789, é tão profundo e marcante que a partir daí tem início outra época, tradicionalmente denominada Idade Contemporânea.

A segunda metade do século XVIII passa a ser denominada Século das Luzes, em virtude do predomínio gradual das idéias de tolerância religiosa e reforma política e social que asseguram maior liberdade individual.

É nesse período de ebulição política na Europa que nasce Jane Austen, em 16 de dezembro de 1775, no presbitério de Steventon Parish, em Hampshire, na rural da Inglaterra, no reinado de Jorge III.

Jane é a segunda filha e a penúltima dos oito filhos do reverendo George Austen e sua esposa Cassandra Leigh Austen, pertencentes a uma família tradicional e numerosa. Jane recebe em casa a maior parte de sua instrução. Tem uma infância feliz em meio aos irmãos e a outros garotos, que se hospedam na casa e dos quais o reverendo George é tutor. Amantes do romance e da poesia, para se divertir as crianças escrevem e inventam jogos e charadas, e mesmo sendo uma garotinha, Jane é incentivada a escrever. Desde cedo revela sua inclinação para as letras, ao escrever bilhetes para parentes e amigos em uma época em que escrever cartas é uma espécie de modismo. A leitura pelas crianças de livros da extensa biblioteca do reverendo George fornece material para que escrevam pequenas peças teatrais, que elas próprias representam.

A Abdadia de Northanger
Em 1784, quando seus pais decidem enviar Cassandra - a inseparável irmã mais velha, então com dez anos - para uma escola em Oxford, Jane implora para ser levada junto, no que é atendida. Elas ficam sob os cuidados de uma preceptora; contudo, sem recursos para manter as meninas estudando fora, o pai traz as filhas de volta para casa três anos depois. Jane nunca mais se separaria da família.

Em 1790, com catorze anos de idade, Jane escreve seu primeiro romance, Amor e Amizade, sob a forma epistolar - estilo que nunca seria inteiramente dominado pela escritora. Essa e outras obras escritas anonimamente na adolescência, além de uma coleção de cartas, comporiam os três volumes da coletânea Juvenilia.

A vida de Jane Austen até então não é marcada por grandes acontecimentos, nada ocorre que possa perturbar a sua pacata existência. Contudo, apesar da tão pouca vivência, do restrito convívio social e de morar sempre em pequenas cidades do interior da Inglaterra, a escritora possui uma visão extraordinariamente cosmopolita.

Mansfiel Park
Transforma-se em uma notável cronista da sociedade inglesa da época, que, ao contrário do que se poderia supor, não é uma sociedade rural típica inglesa, estável, conservadora, e sim uma sociedade burguesa, um mundo fluido, e arbitrário em' que algumas famílias nadam em dinheiro novo, enquanto outras lutam para manter o pouco que possuem.

Com percepção aguda dos fatos e 'estilo pacífico, sereno e equilibrado, Jane consegue construir em seus romances uma descrição minuciosa do ambiente a que pertence com uma sutil ironia. Seus primeiros' escritos contêm imagens anárquicas e de violência em abundância, e por ser, filha de um eclesiástico do século XVIII, isso revela uma ousadia incomum.

O romance Lady Susan, escrito na adolescência, em 1792, é inspirado em As Relações Perigosas, de Choderlos de Lados" um livro que seria proibido para uma senhorita da pequena burguesia, educada nos rigores do puritanismo. É possível que os pais de Jane não lhe censurem as leituras, pois seu trabalho literário também recebe influência de Sir Charles Dickinson, escrito por Samuel Richardson, e de Tom Jones, de Henry Fielding, livros considerados igualmente escandalosos na época.

Razão e Sensibilidade
A criação aristocrática também aflora na temática dos romances de Jane Austen, sobretudo na caracterização psicológica de suas personagens femininas, verdadeiras heroínas burguesas, cuja preocupação máxima é conseguir um bom casamento. Sem dúvida a principal diferença entre Jane Austen e suas heroínas sensuais é que, no caso destas, não só suas percepções e critérios são importantes como também em geral têm a oportunidade de escolher o próprio destino.

Ainda em 1792, Jane escreve Kitty ou o Caraman chão, e entre 1795 e 1798 Elinor e Marianne, romance epistolar que serviria de base para Razão e Sensibilidade, A Abadia de Northanger, que parodia os livros de terror, muito populares à época, mas que só seria publicado postumamente, e Orgulho e Preconceito.

Em 1795, no final da adolescência, Jane se apaixona por um irlandês encantador chamá-lo Thomas Lefroy, mas o romance não se concretiza e termina no ano seguinte. Essa desilusão amorosa sem dúvida desencadeia em Jane os mesmos sentimentos de vulnerabilidade e de um relativo abandono que marcaram sua infância, quando a mãe a deixara juntamente com a irmã Cassandra Elizabeth aos cuidados de uma preceptora em Oxford.

Orgulho e Preconceito
Em 1801, aos 26 anos, muda-se com os pais e Cassandra, para Bath. Após a morte do irmão George, deficiente mental, do pai, em 1805, e da cunhada, que deixa órfãos os onze filhos de seu irmão Edward, ela passa por um período de depressão, durante o qual escreve muito pouco.

Em março de 1807 Jane, Cassandra e a mãe mudam-se para Casde Square, Southampton. Passam a morar com seu irmão Frank, um capitão naval, e sua esposa.

Em 1809 as três mulheres transferem-se para uma pequena más confortável casa cedida pelo próspero irmão Edward em Chawton, próximo a Winchester, no sul da Inglaterra. Jane retoma a atividade literária e começa a preparar a versão final de Razão e Sensibilidade e de Orgulho e Preconceito.

Em 1811, então com 36 anos, publica Razão e Sensibilidade e começa a escrever Mamfield Park, que seria publicado em 1814, ano em que começa a escrever Emma, obra dedicada ao príncipe regente, futuro George IV; e publicada no ano seguinte.

Emma
No início de 1817 Jane começa a escrever outro romance, Sanditon, mas poucos meses depois adoece, vitimada por uma complicação pulmonar, e vê-se obrigada a ir para Winchester para se tratar. Porém, fica paralítica e morre em 18 de julho, aos 41 anos de idade. Cassandra está a seu lado. Uma semana depois é sepultada na catedral da cidade, sem a presença da irmã, já que nessa época mulheres não assistem a funerais.

Além de A Abadia de Northanger, outras obras publicadas após sua morte são Persuasão e Lady Susan, com um prefácio biográfico escrito por Henry, seu irmão predileto. As obras The Wátsons e Sanditon também são póstumas, mas são trabalhos não concluídos.

A linguagem pura e simples, o tom humorístico, sarcástico, a agudeza de espírito e os sempre atuais temas de amor e casamento garantem a imortal popularidade de Jane Austen, cujos romances são frequentemente reproduzidos com sucesso nas telas de cinema.

A Abdadia de Northanger
Ao longo dos séculos, biógrafos e críticos têm se perguntado como a tímida e reservada filha de uni clérigo protestante do interior da Inglaterra viria a produzir livros tão sofisticados, como uma mulher de temperamento doce, morta aos 41 anos de idade, solteira e com pouco convívio social, se converteria em autora de romances tão irônicos e profundamente modernos, que não se enquadram em nenhum dos padrões literários característicos de sua época.

Gustave Flaubert

Lá fora, o inverno. As flores do pátio morreram. As folhas dos plátanos foram ficando douradas e caíram. O pequeno rio gelado não é mais que um filete de vidro. Até mesmo a estátua de Corneille, sobre a, Ponte de pedra, está coberta de neve.

Ruão, 1821. O doutor Achi1le-Cléophas Flaubert não contempla a paisagem. Passa muitas vezes ante a janela embaçada. A sabedoria do médico-cirurgião se tornou inútil e a longa experiência profissional de nada lhe serve. Há horas que anda de um lado para outro. De repente pára, apruma o ouvido, sorri: acaba de nascer seu segundo filho.

Casa de Flaubert em Croisset
Os recén-nascidos são geralmente levados da maternidade para casa. Mas a casa de Gustave Flaubert é o próprio hospital, o Hôtel- Dieu. Um lar sem dúvida pouco propício para o desabrochar do mundo alegre e puro de uma criança. Recompensa-o, no entanto, ouvir histórias de fadas e relatos fantásticos ou brincar com os irmãos, Chille e Caroline.

Aos dez anos vai estudar no renomado Colégio Real. Gustave é uma criança distraída e desinteressada. Prefere cultivar e devorar romances em vez de estudar matérias obrigatórias. Nos intervalos da aula Gustave lê. Gosta de romances históricos, de aventuras maravilhosas, de poesias carregadas de sentimento que caracterizam o Romantismo. E um dia resolve escrever também. Compõe narrativas históricas e alguns contos, seguindo os padrões de suas leituras preferidas. Redige também o semanário escolar Arte e Progresso.

O jovem  Flaubert
Aos quinze anos descobre o teatro. Atraem-no as peças de Shakespeare, Alexandre Dumas, pai e Vitor Hugo. Decide, então, compor um drama em prosa, em cinco atos, Luiz XI. Pouco tempo mais tarde, no inverno de 1837, aos dezesseis anos, descontente com a aventura teatral, redige seu primeiro romance, Paixão e Virtude. Nessa obra imatura e juvenil vislumbram-se os germes e suas grandes criações: a heroína, Mazza, contém os traços que reaparecerão' em Ema Bovary. A minúcia com que descreve- a paisagem e o ambiente, o esforço para encontrar, em seu vocabulário de adolescente, a palavra exata, a preocupação de harmonizar temperamento e ação, enfim, todas as características do futuro Flaubert já se anunciam timidamente nessa primeira narrativa literária.

É nessa época que descobre o amor. Amor de adolescente por uma mulher casada, onze anos mais velha: Elisa Schlesinger. Tanto ela quanto o marido gostam muito de Flaubert. Levam-no a passeios de barco, convidam-no para jantar e se preocupam com seus problemas. Gustave nunca falou à amada de amor, nunca esboçou um gesto de carinho: adora Elisa em silêncio. Ela respeita-lhe os sentimentos. Trinta anos mais tarde, numa carta apaixonada, Flaubert finalmente declarou que a amava. Embora viúva, não quis esposá-lo. O amor impossível e constante inspirou-lhe quatro livros: Memórias de um Louco (1838), Novembro (18'42) e as duas versões de A Educação Sentimental. Na primeira versão, escrita em 1845, ainda sob o impacto de sua experiência amorosa, o jovem Flaubert confere um desenlace feliz a sua paixão, acreditando ainda que, para conquistar a felicidade, bastaria desejá-la com toda a força. Anos mais tarde, ao redigir a segunda versão da obra (1869), reconhece o engano: de sua mocidade. Inicia o livro com uma saudosa evocação de Elisa Schlesinger (a Sra. Arnoux do romance) e termina com a melancólica despedida de Frederico Moreau (nome que atribui a si próprio no enredo).

Elisa Schlesinger
Embora infeliz no amor e ávido de escrever, Flaubert compreende a necessidade de cumprir os desejos paternos: diplomar-se advogado. Vai para Paris em 1840, ao dezenove anos, estudar. Sem entender nada das aulas nem dos compêndios, cursa a faculdade. Deixa crescer a barba, fuma cachimbo sem parar, vai ao teatro sempre, freqüenta bons restaurantes, gasta despreocupadamente todo o dinheiro que o pai lhe manda.

A reprovação nos exames, no entanto, abalam Flaubert, e o faz ter o primeiro ataque nervoso. E é esse ataque que faz com que os pais desistam de insistir para que ele conclua os estudos. Flaubert, então, abandona o curso e vai morar com a família na vila de Croisset, à margem do Sena. Ali passa o resto da vida, e assiste, no espaço de três meses, à morte do pai e, da irmã Caroline, falecida em 1846, aos 22 anos, após dar à luz uma, menina.

Os anos passam. Em 1846 Gustave Flaubert conhece a flamejante Louise Collet. Separada do marido, mãe de uma adolescente, amante do filósofo Vítor Cousin, sucumbe de imediato à atração pelo escritor e com ele vive uma tempestuosa aventura.

As Tentações de Santo Antônio
A grande paixão de Flaubert, no entanto, continua sendo a literatura. Considera mais emocionante encontrar uma bela frase que amar uma bela mulher. Ao observar um fato interessante, ao experimentar novas emoções, fixa-as imediatamente num livro de notas, para usá-las mais tarde. Tal aspecto mostra o pendor de Flaubert para a escola literária realista, fato que o salva de cair nos exageros sentimentais característicos de alguns românticos decadentes.

Não é o caso de Flaubert. Sob forma precisa e realista, revela um tédio em muito semelhante ao "mal do século" que, tendo sido desencadeado por Goethe, atingiria Chateaubriand, Alfred de Vigny, entre outros.

Demonstra ainda forte amor à natureza, lírico, sentimento da paisagem, fantasias idílicas. Transfere para si os dramas vividos por seus protagonistas. Ao concluir Madame Bovary, declara: "Quando escrevi a cena de envenenamento senti na boca o gosto do arsênico, senti-me envenenado. Tanto que tive duas indigestões seguidas, duas indigestões reais...".

Madame Bovary
Flutuando entre um programa realista e o temperamento romântico, Flaubert acaba tão mergulhado na atividade literária que não cuida mais de Louise nem percebe as transformações políticas da França. Em1848 rompe com a amante. O rei Luís Filipe entrega o poder a Napoleão Bonaparte. Flaubert aceita o fim da aventura amorosa sem sofrimentos e observa imperturbável os sangrentos episódios políticos. Quando muito se aborrece com a violência que testemunha. Não se envolve. Apenas registra alguns fatos que mais tarde relatará em suas obras. O que consegue sacudi-lo profundamente nada tem a ver com a revolução ou com Louise Collet: a morte do amigo Le Poittevin. O próprio Flaubert fecha-lhe os olhos. É uma dor imensa, que abala sua saúde. Seguindo conselho médico, parte em viagem para o Oriente em outubro de 1849, onde pretende ficar por dois anos. Mas meses depois está de volta.

Antes de viajar, começara a redação de As Tentações de Santo Antônio, obra inspirada num quadro do pintor flamengo Bruegel, mas o amigo Du Camp não aprova a peça. Decepcionado, pois esperava uma reação mais entusiasmada, abandona a obra, para retomá-la apenas em 1869.

Casamento de Emma
Aos trinta anos, o romancista pouco tem da beleza da juventude. A doença, o afã de escrever, a viagem ao Oriente e o desencanto amoroso aniquilaram-lhe a beleza. O rosto agora está sulcado de veias vermelhas. A boca oculta-se atrás de grossos bigodes. Os cabelos rareiam. Mesmo assim, Louise Collet ainda o procura. Entra, um dia, abruptamente, em sua casa de Croisset em busca do antigo calor e do casamento. Flaubert, irritado e, impaciente, expulsa:'a sem rodeios. Logo após, no entanto, reata com ela uma longa correspondência. Nela, muitos de seus planos e idéias ficam registrados para sempre.

Em junho de 1951, após longo períod9 de inatividade, Flaubert inicia a composição da mais famosa de suas obras: Madame Bovary, que o tornará em pouco tempo um dos mais célebres romancistas da França. São cinco anos de trabalho, e finalmente Madame Bovary começa a ser publicada na Revue de Paris a partir de outubro de1856, porém com cortes das cenas mais picantes. Alguns meses mais tarde, ainda que sem as cenas que certamente provocariam a cólera das autoridades, a censura decide suspender a publicação de Madame Bovary e processar o autor. A justificativa oficial é a "imoralidade" da obra. A verdade, porém, é que o romance ataca a moral burguesa, posta a nu em sua fragilidade, convencionalismo e falsidade, através da caracterização da vida monótona e sem atrativos da província.

Caricatura do século XIX
Flaubert tenta abafar o processo, recorrendo a amigos influentes. Em vão! Em janeiro de 1857, ao 36 anos, senta-se no banco dos réus. Oito dias depois, porem,é absolvido, e o livro, editado na íntegra, esgota-sé em pouco tempo.

Muitos querem saber em quem Flaubert se inspirou para compor Ema Bovary. Diante da insistência de todos, declara: "Madame Bovary sou eu". A frase, encarada como gracejo na época, encerra muita verdade. Como Ema, Flaubert procurava fugir à mesquinhez cotidiana e sonhava com amores irreais, ansiando por uma existência mais plena.

Com o passar dos dias a fama acaba por cansar Flaubert. E ele volta a Croisset em 1857 para trabalhar em Os Mercenários. Concluída a obra, viaja para o Oriente. Começa a escrever - e- publicar em capítulos - ainda nesse ano a obra Salammbô, que não é sucesso nem de crítica nem de público. Como que para esquecer o fracasso de Salammbô, reescreve A Educação Sentimental.

Corre o ano de 1870. A França sofre a invasão prussiana. Eclode a guerra entre França e Alemanha. A queda da pátria representa, para Flaubert, apesar do seu indiferentismo político, "a chegada do fim ,do mundo".

O escritor volta a padecer dos ataques epilépticos da juventude. O pai já não está presente para tratá-lo com sangrias e dietas. O amigo Bouilhet morrera, assim como a mãe de Gustave. Elisa Schlesinger, viúva, encontra-se recolhida a um asilo de loucos. Flaubert só tem a companhia da sobrinha, e, em visitas breves, a do romancista Émile Zola,do jovem contista Guy de Maupassant e do escritor russo Ivan Turgueniev.

 Jennifer Jones no filme de 1949
A vida, que para ele nunca tivera atrativos, é agora um tédio infinito. A única distração ainda é escrever. Aos 55 anos, Flaubert elabora um conto que é uma obra-prima: Um Coração Simples. A morte de Louise Collet o deixa mais s6. Começa a escrever Bouvard et Pécuchet, mas não consegue concluí-lo. Padece de terríveis sofrimentos físicos. A mão não tem mais firmeza. A palavra certa não lhe ocorre mais. Finalmente, um ataque de apoplexia dá-lhe o golpe mortal. O tédio dissolve-se, a vida pára. Num dia de primavera de 1880, o romântico mestre do Realismo francês resolve suas inquietações. Mas não lhe havia sobrado tempo necessário para cumprir a promessa que fizera a um amigo: "Um dia, antes de morrer, resumirei minha vida, tentarei contar-me a mim mesmo".

Leon Tolstói


Faz mais de meio ano que ingleses e franceses investem, sem trégua, contra Sebastópol. A cidade sitiada não se rende. Seu drama diário inspira os jornais da Rússia, penetra nos salões da nobreza, faz chorar o povo simples.

Instalada em seu palácio, Maria Alexándrovna ouve as notícias e se comove. Porém nunca lhe viera aos olhos uma lágrima pela sorte de Sebastópol. Até que um dia caem-lhe nas mãos três histórias de luta - três pequenos contos de um soldado desconhecido; pela primeira vez, desde o começo da guerra, a czarina abandona-se em um longo pranto. Leon Tostói. O nome não lhe é totalmente estranho. Lembra-se de tê-lo ouvido ligado a uma família de aristocratas, mas não tem certeza. Põe, então, os secretários da corte à procura de mais dados.

Tolstói, pai, morrera em 1837. Viúvo, deixara cinco filhos: Dmítri, Sérgio, Nicolau, 'Maria e Leon, este nascido em agosto de 1828. Tia Alieksandra Osten Sacken incumbira-se de cuidar das crianças.

Nesse tempo é moda entre os nobres estudar com professores estrangeiros. Não fica bem um aristocrata expressar-se em russo como qualquer camponês, e Aleksandra contrata um preceptor alemão para os sobrinhos.

Casa em Iásnaia onde nasceu
Quatro anos dura o encargo de tia Aleksandra, na cidade de lásnaia Poliana. Em 1841 ela morre, e os meninos são entregues aos cuidados de outra irmã de seu pai, Pielagueia, que mora em Kazan. É uma mulher severa e áspera, de rígidos princípios morais. Assim que põe os olhos em Leon, decide fazer dele um militar; como alternativa, pode ser diplomata.

Em 1844, aos dezesseis anos, Leon vê-se estudando línguas orientais na Universidade de Kazan. Mas revela-se uma decepção para Pielagueia: nem se porta de acordo com o manual de boas maneiras da aristocracia nem se distingue nos estudos. Transfere-se então para o curso de direito, mas é reprovado nos primeiros exames. Desiludido com a escola e cansado de ouvir as recriminações da tia, retoma a. Iásnaia Poliana em 1847. Porém o tempo que fica naquele lugar desolado é pouco. Meses depois vai para Moscou. Essa cidade, contudo, também parece não ter muito a lhe oferecer.

Em 1849, aos 21 anos, parte para São Petersburgo, e aí retoma o curso de direito. Não se distingue como aluno, e sim como farrista de primeira e namorador incorrigível. Instável, nem as noites nem as mulheres conseguem retê-lo. Meses mais tarde volta a Iásnaia Poliana. Começa a ler a Bíblia e as obras de Jean-Jacques Rousseau. Ao terminar as leituras, sente-se ainda mais inquieto.

Combates no Cáucaso
Seu irmão Nicolau acaba de voltar do Cáucaso, onde estivera em combate. Os relatos de suas aventuras despertam em Leon o desejo de partir para a luta.

Em 1851 está no Cáucaso, combatendo com bravura. Encorajado pelos elogios.e encantado com a vida militar, presta exame em janeiro de 1852 para ingressar no Exército e é admitido. Ao mesmo tempo publica os capítulos de A História da Minha Infância, em relato autobiográfico de sua meninice, na revista O Contemporâneo, de São Petersburgo.

Dois anos depois explode a Guerra da Criméia, conflito que opôs França, Inglaterra, Turquia e o Piemonte à Rússia. Tolstói é designado para lutar em Sebastópol, onde compõe os contos que tanto comoveriam a rainha Mari Alexándrovna.

Volta a São Petersburgo depois do final da guerra e é recebido como herói. O tempo que fica ali é pouco. Em 1857 parte para o exterior - Alemanha, França, Itália, Suíça.

Dois anos depois, volta a Iásnaia Poliana carregado de livros e de idéias formigando na cabeça. Sente urgência em fazer algo pela Rússia, e acha que deve começar pelos que lhe estão mais próximos: os servos. Preocupa-se sobretudo com o analfabetismo, e em 1859, aos 31 anos, funda em sua propriedade uma escola para crianças e adultos. Como lhe falta conhecimento de pedagogia, vai para Dresden estudar. Antes de reiniciar suas atividades de professor, detém-se em Hyeres, sul da França, onde seu irmão Nicolau tenta curar-se de uma enfermidade pulmonar. Ao lado dele começa a escrever Os Cossacos (1863), reminiscência de sua estada no Cáucaso.

Uma foto rara do  jovem Leon
Apesar dos cui4ados médicos, Nicolau sucumbe à doença, o que abala Leon profundamente. Em vez de voltar à Rússia, reúne-se a amigo Alexandre Herzen em Londres, e é aí que festeja a emancipação dos servos decretada por Alexandre 11. É uma grande vitória dos ocidentalistas, que combatem o isolamento da Rússia, a monarquia e a servidão e lutam por uma aproximação cada vez maior com o Ocidente.

Leon, um ocidentalista convicto, volta a lásnaia Poliana, aos 34 anos, e põe-se à disposição do governo. Trabalha como juiz de paz da província, com o encargo de contornar possíveis problemas entre proprietários e antigos servos, quando se surpreende a contemplar Sófia Andriêievna corri um novo olhar. Conhece-a desde criança, mas agora, aos dezessete anos, ela lhe parece adorável. O escritor tem o dobro da idade da jovem, mas isso não chega a ser obstáculo, e o casamento realiza-se em setembro de 1862.

A felicidade de Tolstói seria completa se ele não tivesse de fechar a escola em 1863 e suspender a publicação que havia fundado logo depois do casamento.

As dificuldades financeiras levam Tolstói a encarar a literatura como um meio de vida. Quer escrever algo grandioso, e a resistência às invasões napoleônicas do início do século dezenove são pano de fundo para o romance Guerra e Paz, que começa a ser escrito em 1863 e só é concluído em 1869. Os primeiros capítulos começam a ser impressos em 1865 no Mensageiro Russo.

Servos camponeses
À medida que a narrativa evolui, o entusiasmo dos leitores aumenta. Guerra e Paz propicia-lhe os lucros pretendidos, e dessa forma consegue reabrir a escola de lásnaia Poliana, tempo para ler Goethe, Cervantes e Dickens e estudar grego para conhecer llíada no original.

É 1875. Numa pequena aldeia perto de lásnaia Poliana nada acontece que consiga sacudir o marasmo daquela gente. Todo o divertimento é reunir-se na estação, uma vez ou outra, e ver passar o trem, que raramente deixa algum passageiro. Um dia corre sangue sobre os trilhos. A aldeia se agita. Uma mulher, sobrinha e amante de um homem poderoso da aldeia de Iássienki, desesperada com sua vida amorosa, joga-se à linha do trem. Tolstói parte imediatamente para a vila, quer ver o cadáver. Decide investigar as razões que teriam -levado a mulher ao suicídio. Há tempo pretende escrever a história de uma dama da alta sociedade russa envolvida numa trama de paixões e decadência. O suicídio da mulher fornece-lhe o desfecho para seu romance e o perfil para a protagonista. E Ana Karênina ganha vida.

Publicado de 1875 a 1877 no jornal Mensageiro Russo, Ana Karênina agrada intensamente ao público e provoca variadas reações entre os críticos. Dentre os grandes romancistas russos, o único a aplaudir irrestritamente o livro é Dostoiévski.

Menino pobre russo





Críticas e elogios deixam o autor indiferente. Suas preocupações haviam ultrapassado os limites da arte para concentrarem-se em problemas morais e religiosos. A pergunta sobre o sentido da vida repete-se em seu cérebro com insistência cada vez maior. Não pode continuar adiando a procura da resposta. Busca-a na religião ortodoxa, convive em mosteiros com monges, estuda os evangelhos: nenhuma explicação o satisfaz.

Em 1886, aos 58 anos, por insistência da mulher e dos admiradores, temerosos de que ele abandone a literatura, Tolstói abre um parêntese em suas investigações religiosas para escrever A Morte de Ivan Ilitch. O herói é um funcionário bem-sucedido, casado com uma boa moça e que vive como todos esperam que viva. Um dia sofre um acidente, os médicos não conseguem curá-la, o homem definha lentamente. Todos se afastam dele, exceto um pobre servo que o assiste na agonia. Ivan Ilitch, em meio ao sofrimento, percebe a falsidade de sua vida e deseja libertar-se dos seus enganos antes de morrer. Confusamente, descobre na caridade a verdadeira chave da salvação.

A conclusão à qual chega o personagem é aplicada na prática pelo autor, em 1891. O verão fora rigoroso, os campos russos estavam secos, os lavradores, desesperados. O governo veta qualquer iniciativa particular de ajuda aos flagelados. Tolstói, ignorando a proibição, organiza postos de serviços, recolhe fundos, faz campanhas por meio de artigos veementes.

Contudo, nem sempre o romancista vive de acordo com as idéias que professa. Em Sonata a Kreutzer, publicado em 1889, por exemplo, prega a abstinência sexual entre os casais. No mesmo ano da publicação nasce-lhe o décimo terceiro filho; aconselha o desapego dos bens materiais, mas a mulher e os filhos não lhe permitem vender as propriedades; deseja viver como mendigo e tenta uma experiência desse tipo, mas logo o reconhecem e o excluem do convívio com os pobres.

Vivien Leigh em Anna Karenina de 1948
A atitude de Nicolau II fornece-lhe a oportunidade de praticar seus ideais. O povo anda insatisfeito com o czar; alguns desejam partir para a América, mas nem todos têm recursos suficientes para isso. Tolstói, então, volta à literatura com o objetivo de angariar fundos para .a emigração dos insatisfeitos. Publica, em 1899, aos 71 anos de idade, Ressurreição, a história de uma camponesa que, seduzi da e, depois, abandonada pelo filho da patroa, torna-se prostituta.

A Igreja Ortodoxa russa vem seguindo atentamente a evolução do tolstoísmo e não vê com bons olhos as pregações do' mestre. Ressurreição parece ter sido a gota decisiva que provoca o rompimento com o escritor. Em 1901 Tolstói é excomungado. O país inteiro protesta. Mas o romancista limita-se a reafirmar seu próprio credo. Achara, enfim, respostas para suas dúvidas. Agora só o preocupa a saúde debilitada. No verão desse mesmo ano parte para a Criméia, a conselho médico. Acompanha a 'declaração de guerra.entre Rússia e Japão a distância. Com a derrota, a Rússia perde a ilha de Sacalina, milhares de soldados e qualquer pretensão sobre a posse da Coréia. O descontentamento popular explode no ano seguinte, nos episódios do "Domingo Sangrento", de Moscou, quando mil operários são mortos pela guarda czarista, e na revolta do couraçado Potemkin.

Greta Garbo na versão de 1935
Cansado e enfermo, aos oitenta anos Tolstói redige um artigo vibrante de indignação, que a censura imperial veta. Não Posso Calar, contudo, sai impresso em jornais estrangeiros, despertando, a consciência da Europa para os problemas russos.

Apesar da severa vigilância, o artigo circula na Rússia de maneira clandestina. A polícia nada pode fazer contra Tolstói - velho e amado -, mas sai à caça dos que participam da veiculação do escrito e prende quantos pode.

Rebeliões, matanças, enfermidades, disputas - os últimos anos de Tolstói transcorrem dolorosos. Sófia começa a atormentá-lo para morar na corte. Pressionado de tal modo que em outubro de 1910 o escritor foge de casa. Conforme declara, deseja viver em solidão e recolhimento os últimos dias "da minha existência". Pressentindo que não seriam muitos esses dias, leva consigo Aleksandra, a filha mais querida, e o médico Pietróvitch, um velho amigo. Pretende tomar o rumo do sul, mas o corpo cansado não consegue ultrapassar a aldeia de Astápovo.

Tolstói em 1906
A notícia da fuga espalha-se rapidamente. A pequena vila inunda-se de discípulos, admirador, fotógrafos, cinegrafistas. O escritor permanece encerrado em seu quarto, esperando mansamente a morte. Na manhã de sete de novembro a espera acaba. Dois dias depois Tolstói é enterrado no bosque onde brincara na infância, em lásnaia Poliana. Ninguém lhe constrói monumentos nem lhe grava lápides. Seu túmulo é um elevado de terra, coberta de grama. Leon Tolstói não desejara mais que isso.